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Como vimos nas cenas de nossos últimos capítulos...
"O mundo aparece e se traduz como linguagem" e este é o fundamento de toda a Semiótica.
Enquanto isso, falávamos das categorias de Peirce. Então, voltemos.
- Exemplificar as categorias como manifestações psicológicas significa examinar os modos mais gerais conforme os quais se dá a apreensão dos fenômenos na consciência.
- Consciência não se confunde com razão. Consciência é como um lago sem fundo no qual as idéias (partículas materiais da consciência) estão localizadas em diferentes profundidades e em permanente mobilidade. A razão (pensamento deliberado) é apenas a camada mais superficial da consciência. Aquela que está próxima da superfície.
- A consciência é o lugar onde interagem formas de pensamento.
- Peirce não desvalorizava a razão. Sua lógica, aliás, se propõe como sendo um método científico para orientar o raciocínio. Sua noção de consciência é ampla, dinâmica, em alguns aspectos próxima dos estudos da estrutura psíquica em Freud e mais próxima ainda da noção de consciência que as atuais pesquisas do cérebro estão nos dando.
- Peirce passa a defender que, tomando-se consciência como um todo, nada há nela senão estados mutáveis. O que chamamos racionalidade sofre, a todo momento, a influência de interferências fora do nosso controle.
- Assim, suas categorias são, para ele, os três modos como os fenômenos aparecem à consciência. São modos de operação do pensamento-signo que se processam na mente.
- Essas três categorias irão para o que poderíamos chamar três modalidades possíveis de apreensão de todo e qualquer fenômeno. Elas se constituem, nas modalidades mais universais e mais gerais, através das quais se opera a apreensão-tradução dos fenômenos.
Primeiridade
- A Primeiridade é a pura qualidade de ser e de sentir. A qualidade da consciência imediata é uma impressão (sentimento) in totum, indivisível, não analisável, inocente e frágil. Tudo que está imediatamente presente à consciência de alguém é tudo aquilo que está na sua mente no instante presente.
- É presente imediato, de modo a não ser segundo para uma representação. Precede a síntese e a diferenciação, não tendo nenhuma unidade e nem partes. Dessa forma, não pode ser articuladamente pensado e qualquer descrição sua irá necessariamente falseá-lo.
- Consciência imediata e passiva, livre de autocontrole e de esforços racionalizantes.
"Esse estado-quase, aquilo que é ainda possibilidade de ser, deslancha irremediavelmente para o que já é, e no seu ir sendo, já foi. Entramos no universo do segundo."
Secundidade
- O simples fato de estarmos vivos, existindo, significa, a todo momento, consciência reagindo em relação ao mundo.
- A qualidade tem de estar encarnada em uma matéria. A factualidade do existir está nessa materialização. Isto é a Secundidade.
- Nossas reações à realidade e interações com a materialidade das coisas e dos seres são resposta sígnicas ao mundo.
- Agir, reagir, interagir e fazer são modos marcantes, concretos e materiais de dizer o mundo.
- É o que dá à experiência seu caráter factual, de luta e confronto. Ação e reação sem interferência da intencionalidade, razão ou lei.
Terceiridade
- Como já vimos, pelos estudos pierceanos, todas as experiências são constituídas por três elementos: primeiridade, secundidade e terceiridade.
- A Terceiridade aproxima o primeiro e o segundo numa síntese intelectual. É a camada de inteligibilidade, pensamentos em signos, através da qual representamos e interpretamos o mundo.
- A mais simples ideia de terceiridade é aquela de um signo ou representação. Buscando conhecer e compreender um fenômeno do qual está diante, a consciência produz um signo. A isso chamamos de percepção. Perceber é traduzir um objeto de percepção em um julgamento de percepção. Interpor uma camada interpretativa entre a consciência e o que é percebido.
- O homem só conhece o mundo porque, de alguma forma, o representa e só interpreta essa representação em uma outra representação.
- O significado de um pensamento ou signo é outro pensamento.
- O signo é um primeiro, o objeto um segundo e o interpretante um terceiro.
- Nessa medida, para nós tudo é signo, qualquer coisa que se produz na consciência tem o caráter de signo. No entanto, Peirce leva a noção de signo tão longe a ponto de que um signo não tenha necessariamente de ser uma representação mental, mas pode ser uma ação ou experiência, ou mesmo uma mera qualidade de impressão.
Definição de signo
- Há uma enorme quantidade de definições.
- A escolhida: "Um signo intenta representar, em parte pelo menos, um objeto que é, portanto, num certo sentido, a causa ou determinante do signo, mesmo se o signo representar seu objeto falsamente. Mas dizer que ele representa seu objeto implica que ele afete uma mente, de tal modo que, de certa maneira, determine naquela mente algo que é mediatamente devido ao objeto. Essa determinação da qual a causa imediata ou determinante é o signo, e da qual a causa mediata é o objeto, pode ser chamada o Interpretante".
- Ou seja: o signo é uma coisa que representa uma outra coisa: seu objeto. Ele só pode funcionar como signo se carregar esse poder de representar, substituir uma outra coisa diferente dele. Ora, o signo não é o objeto. Ele apenas está no lugar do objeto. Portanto, ele só pode representar esse objeto de um certo modo e numa certa capacidade.
- Peirce estabeleceu uma rede de classificações sempre triádicas dos tipos possíveis de signo.
Sobre a Semiótica
- Ainda em 1909, Pierce escreveu: "A grande necessidade é a de uma teoria geral de todas as possíveis espécies de signo, seus modos de significação, de denotação e de informação; e o todo de seu comportamento e propriedades, desde que estas não sejam acidentais.
- Enfim, as tríades peirceanas funcionam como uma espécie de grande mapa, rigorosamente lógico, que pode nos prestar enorme auxílio para o reconhecimento do território dos signos, para discriminar as principais diferenças entre signos, para aumentar nossa capacidade de apreensão da natureza de cada tipo de signo.
- A Semiótica peirceana (Semiótica geral, teoria dos signos em geral) nos trouxe foram as imprescindíveis fundações fenomenológicas e formais para o necessário desenvolvimento de muitas e variadas Semióticas especiais.
- A Semiótica peirceana é, antes de mais nada, uma teoria sígnica do conhecimento.
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