quinta-feira, 23 de maio de 2013

O processo de um olhar (quase) Semiótico


“Em um primeiro momento, pelo menos, temos de dar aos signos o tempo que eles precisam para se mostrarem.”

        É com essa citação que começo minha análise (acho, no caso, essa palavra muito audaciosa, visto que não me acho conhecedora o suficiente das teorias semióticas para realizar uma verdadeira análise de uma obra de arte dentro desta perspectiva). Prefiro dizer que apenas exporei minhas impressões quanto ao processo de observação (falando em termos gerais) e, neste percurso, tentarei fazer conexões com os conceitos estudados na disciplina até agora.

            De todas as diversas e belas obras que tive a oportunidade de ver em nossa visita ao Museu de Arte da UFC (MAUC), várias me chamaram a atenção, claro. A riqueza e variedade das obras é um prato cheio para todo e qualquer apreciador (mesmo que bem amador – e esta é minha condição) da arte. Entretanto, para termos de exposição de minhas impressões, cheguei à conclusão que me sentiria mais à vontade falando do quadro “Amazonas guerreando” de Antonio Bandeira (Bandeira, sem o s, diferenciando-se, assim, do ator). Enfim, a imagem do quadro é esta que segue abaixo:



              Pois bem, retomando as palavras de Santaella: “Em um primeiro momento, pelo menos, temos de dar aos signos o tempo que eles precisam para se mostrarem.” Em um primeiro momento esse quadro pode não parecer nada além de rabiscos. Para um observador mais desavisado, não passaria apenas de manchas de tintas sobre uma tela. Na primeiridade da contemplação, acredito que o efeito mais comum seja o de estranhamento, ou até mesmo desconforto com a aparente bagunça das “manchas de tinta” jogadas na tela. Eu mesma confesso que me senti um pouco incomodada quando notei o quadro na parede branca. Pensando no quadro como um signo num todo, todas aquelas manchas de tinta bagunçadas não passavam de possibilidades qualitativas, inicial e aparentemente sem significado determinado.

          Mas então, após o estranhamento, passei a reparar e analisar o quadro. Suas cores, formas, composição. Enfim, esquadrinhei seus elementos visuais. Confesso que não fiz isso pensando nos passos da análise semiótica, fiz por instinto mesmo, pura curiosidade e necessidade de desvendar aquela incógnita que se apresentava naquele momento. Enfim, passei a observar cuidadosamente o signo. Percebi as coisas que tornavam aquela obra única, seus traços, sua combinação de cores, as formas. Observei tudo que pude e meu sentimento para com a obra começou a moldar-se ao pensamento. Não havia mais o estranhamento, desconforto. Parecia que, mesmo sem compreender suas motivações, o quadro já passava uma mensagem, demonstrava sua unicidade e seu rico potencial interpretativo. Nesse momento, acredito que iniciou-se um processo terceiro em minha mente, quando procurei racionalizar a respeito daquilo. Busquei informações. Quando vi o título da obra, Amazonas Guerreando, pode então captar um pouco das potenciais significações ali apresentadas. Pensei sobre sua possível história, o fato dele estar ali, naquela dada exposição. Analise-o novamente e procurei abstrair o geral do particular, percebi em suas formas, os contornos que, de fato (ou pelo menos em minha mente), sugeriam a mensagem passada pelo título. Nos círculos amarelos, em conjuntos com traços pretos e quadrados azuis, já podia perceber as representações de amazonas, com as mãos na boca, como que gritando para anunciar uma guerra, dando um sinal para as outras atacarem seus inimigos. Comecei então a fazer uma série de significações daquelas imagens e suas potenciais mensagens.

Creio que, nessa experiência, foi possível alcançar os três de olhares. O primeiro, da apreensão do objeto imediato do quali-signo, condição causada pelo poder de sugestão da aparência do mesmo. Em seguida, a contemplação da materialidade do sin-signo, a sua simples condição de existir como parte de um universo maior. E então o olhar dirigido ao fundamento do legi-signo, considerando sua propriedade de lei, em cujo estágio a análise do objeto imediato leva ao objeto dinâmico, que já nos leva a analisar do modo como o signo transmite algo ao seu observador, ou seja, o caráter de representação do signo, no caso, simbólico, já que as formas do quadro simbolizam as amazonas e nos transportam, de certa forma, para o seu contexto, para um campo de referências relacionadas ao assunto em questão e que nos permite realizar as conexões que nos trazem a mensagem do signo.

Entretanto, como disse no começo, essa são minhas impressões da obra, e como sabemos, o signo é múltiplo e pode variar de acordo com o olhar do observador. Mesmo não dependendo totalmente do intérprete, cada um pode dar uma significação modificada (até certo ponto) da mensagem.


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